5.7.16

simples coisas




todas essas coisas simples
vão pelo tempo
pelos dias
os sentimentos escorregam em todas elas

guardo um sorriso
um retrato bonito com o reflexo do sol
um cumprimento de abraço demorado
tantas palavras,
que tentam e tentam
explicar o que se passa por dentro
e em volta...

minhas mensagens
mais simples e curtas
cuidam de mostrar o amor
que ainda é possível
e não deixou de existir

esse amor que é simples

deixo o tempo seguir
as pessoas se despedirem
os sentimentos se tornarem outros

não existe escolha

do jeito que permite a vida
sigo gostando, cuidando e apertando sua mão
com carinho

a saudade é essa
das simples coisas
que doem no coração

28.6.16

Adilson


Rui, minha mãe, Adilson e eu

há cerca de dois anos fiz um texto aqui para um amigo da minha família, o Rui. estávamos há muito tempo sem nenhum contato, quando soubemos de sua morte senti uma tristeza e logo uma grande nostalgia por lembrar dos momentos que ele fez parte da nossa vida, das histórias que ouvimos sobre suas viagens, resgatamos fotos e lemos muitos relatos de amigos saudosos de longe, de perto, de vários momentos, que fizeram bonitas homenagens...

a situação agora é diferente. perdemos um amigo que estava distante também, que não deixou de ser e representar todos esses momentos e sentimentos que fizeram parte da nossa vida... acontece, que dessa vez ficou uma tristeza dura, pesada e fria, no lugar dos relatos saudosos, um grande silêncio, no lugar das histórias de vida, um quebra cabeça difícil de montar, que por mais distantes que estejam as peças, nada é suficiente para explicar como o nosso amigo passou seus últimos dias tão sozinho. mas tão sozinho, que morreu na rua de frio.

o Adilson foi amigo dos meus pais nos anos 80, nesse período eles moraram algum tempo juntos, eu era pequena e numa casa dividida entre alguns amigos, acabava sendo um pouco cuidada e criada por todos. foi dessa fase que temos algumas das fotos mais bonitas do nosso album de família, aquela família lá do começo. um jovem casal, viagens de fusquinha, muita música na vitrola da coleção de vinis, minha mãe depois com um barrigão esperando a Juli, acampamentos na praia e passeios no parque pra andar de bicicleta...

depois desse período, reencontrei o Adilson só mais uma vez, por volta dos meus 15 ou 16 anos, ele passou alguns dias na nossa casa perto do natal, era muito gostoso conversar com ele, percebia no seu olhar um encantamento e identificação, que eram recíprocos, não parecíamos estranhos, ele me olhando como uma moça que tinha crescido rápido demais, buscando uma conversa que me interessasse, eu olhando curiosa, como se ele fosse um estrangeiro, trazendo em sua bagagem todo um mundo distante, diferente e cheio de histórias, músicas e lembranças resgatadas lá do tempo que eu era pequena.

lembro do jeito como ele se sentava e mexia as mãos com suavidade, nessa fase suas mãos já tremiam um pouco, lembro de ficar ouvindo sua conversa com a minha mãe na mesa da cozinha, e de como ele cantava fazendo imitação da voz e do jeito dos artistas. o ponto alto era quando imitava o Michael Jakson ou a Madonna, fazendo o efeito dos sons e gritinhos com muita irreverência e humor, dando umas risadas depois. queria poder lembrar mais...

a última vez que o Adilson procurou a gente, eu não morava mais com a minha mãe... a nossa família agora é completamente outra, tivemos que fazer uma série de rearranjos físicos e emocionais pra todo mundo ter seu espaço e ficar bem. meu pai se mudou pra Atibaia e eu tenho minha casa com o Caio na Zona Oeste.

queria que ele pudesse ter aprendido o caminho da minha casa.

minha irmã e mãe fizeram o que puderam para tentar ajudar. era o Adilson sim, com seu jeito e sua bagagem, agora um tanto mais desgastada, machucada. as mãos tremendo muito. cheio de remédios pra depressão e parkinson. por algum motivo, certamente injusto e arbitrário, deixou de receber seu auxílio do INSS e estava com um processo para tentar mudar isso. morou muitos anos no Rio e estava há algum tempo tentando se resolver em São Paulo. soubemos depois de sua morte, que ele ficou algum tempo na casa de um tio e depois de um desentendimento ficou desabrigado. meu pai contou que a relação com sua família sempre foi muito ruim, ele nunca foi aceito por ser gay.

ele chegou a iniciar um acompanhamento num Caps - Centro de Atenção Psicossocial e foi encaminhado para um abrigo em São Miguel, pelo que a assistencia social explicou é muito difícil conseguir um abrigo na região central, o que dificulta muito o deslocamento de quem tem uma rotina de vida nessas áreas, sem contar que os abrigos públicos não são nada acolhedores, são verdadeiras zonas de guerra. Ele foi pra lá alguns dias e uma noite não voltou mais.

algum tempo depois, recebemos a notícia, o Adilson morreu, ele foi uma dessas vítimas "em situação de rua" que morreram de frio em São Paulo. ele teve uma convulsão e uma parada cardíaca causada pela baixa temperatura, estava sozinho e completamente desamparado. ninguém merece uma morte horrível assim, ninguém.

agora tudo parece muito estranho, muito estranho. não consigo compreender, aceitar, como uma pessoa que fez parte das nossas vidas passou por isso e não pudemos evitar, estar lá, procurar se realmente não tinha algum outro jeito, qualquer coisa que não levasse a esse desfecho. fico pensando como o Adilson, assim como tantas pessoas que estão por aí nas ruas, tinha um círculo de laços a sua volta, que foram se desfazendo e se perdendo... me pergunto, a que ponto chegamos, e como podemos viver uma realidade em que isso acontece... e em que a vida não é nossa prioridade máxima.

sei que um problema estrutural está acima de tudo isso, saúde e assistencia social públicas tão precárias e insuficientes, uma política de aposentadoria e auxílio-doença completamente cruel e injusta, uma vida de sofrimento e trabalhos precários. ele era pobre, negro e gay, fico imaginando o tamanho do racismo e homofobia que enfrentou ao longo de toda sua vida, em períodos em que essas lutas contra esses preconceitos eram tão veladas e proibidas.

quero muito que a força da nossa organização um dia seja suficiente pra mudar a lógica dessa sociedade que produz tantas mortes e sofrimentos. mas por hoje, queria mesmo, que a ligação entre todas as pessoas que passaram pela vida do Adilson não tivesse sido tão insuficiente, para que pudéssemos ao menos ter tentado, entre amigos, com mais forças e condições, um outro desfecho, um não desfecho, em que tivéssemos tempo pra mais alguns reeencontros.

existem hoje em São Paulo mais de 15 mil pessoas em situação de rua, cerca de 500 são crianças, 70% se declaram não brancas e a maioria são homens. só no mês de junho foram registradas 25 mortes, quase sempre por problemas respiratórios ou cardíacos, que se agravam com as baixas temperaturas. o sistema público de saúde só permite o cadastro e acompanhamento médico para prevenção e tratamento de doenças comuns e/ou crônicas com a comprovação de residência fixa. muitas dessas pessoas tiveram emprego, moradia e familiares e estão passando pelo período mais difícil e de extrema pobreza de suas vidas. a taxa de desemprego no Brasil está em 10,9%, são 11 milhões de pessoas sem trabalho, a previsão é de que esse número chega a 14 milhões até o final de 2016.

a tristeza é fria como as noites mais geladas de São Paulo.

relato do jornalista Mario Mendes sobre o Adilson: "devia ter cuidado melhor dele".