27.5.15

de fora a fora

 
leonilson - 1988

um passo e outro, pedra, guia, asfalto
queimando sola, carne e osso
suor no pescoço
amanhece, anoitece
o tempo bate frio no rosto
de fora a fora
reunião, conversa, palavra trocada, televisionada
não ouvimos, não obedecemos
os discursos não fazem sentido
as vozes baixas e o olhar atravessado cortam

nas casas, nos morros e vielas
cada um se apega às suas esperanças
choram suas crenças
a conta termina cada dia mais apertada
na dispensa, uma lata salva a sopa na noite fria
ônibus passam carregados
os rostos são negros, são pardos
só na novela os quartos tem janelas ensolaradas
cabelos, sorrisos e pele de propaganda de margarina, de cerveja e shampoo
os pobres são peça de boutique, na última moda

a vida real nos acorda
invade nossos sonhos nas poucas horas de sono
na água gelada na cara
na notícia da primeira hora: país em recessão
na hora de pagar a conta
nas lágrimas de cansaço
na cabeça do peão
no choro das mães de maio
que correm por seus filhos e filhas

um passo e outro, pedra, guia, meio-fio, asfalto
queimando sola, carne e osso

o tempo bate frio no rosto
de fora a fora

suor no pescoço
amanhece, anoitece




8.4.15

a dor e a vontade são maiores


Pais do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, que morreu no Complexo do Alemão após ser baleado 
Foto: FÁBIO GONÇALVES / AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Complexo do Alemão. Foto: RICARDO MORAES

quero sentir as dores e as vontades desse mundo, meus gestos não alcançam.
sinto as lágrimas retesadas na garganta, que querem chorar as dores das mães, mulheres e filhos... não são suficientes.
sinto a raiva mais dura e bruta, dessa força que ainda não alcança, não muda, não transforma.
sinto a voz trêmula, o impulso, não sei o que dizer.
ânsia e angustia desconexas se perdem nesse mar de interesses, no medo, no sangue escuro, queimado, pisado, no asfalto rachado, na pele esfolada da carne mais barata do mercado.

mãos ao alto!
na favela, filho da mãe é lágrima, choro, grito, é esperança que morre a sangue frio, é suor, é urgência, é revolução.

a repressão quer ser do tamanho do sonho, a dor e a vontade são maiores.

23.3.15

Paulão, sempre presente!

 








 

 
 
Nota em homenagem ao nosso companheiro Paulão

Paulo Roberto Gonçalo Samuel, mais conhecido como companheiro Paulão, estava com 58 anos, começou a trabalhar na Prefeitura do Campus em novembro de 1987, sempre como motorista na área de Transportes dividiu suas atividades principalmente entre o Circular e serviços para a área de compras. Para nós, trabalhadores da Prefeitura, era sempre uma feliz surpresa quando íamos fazer algum serviço de carro ou ônibus, e encontrávamos o Paulão no volante, com ele sentíamos a segurança de uma viagem tranquila, cheia de muitas histórias, boa conversa e uma chance de aprender muito sobre a vida.

Como Paulão nunca se interessou por disputas de cargo e posições com seus colegas de trabalho, dirigiu o ônibus Circular até seus últimos dias de funcionamento. Foi uma liderança reconhecida e fez parte de muitas mesas de negociação para defender os direitos dos motoristas e trabalhadores, sem medo e com orgulho de ser trabalhador nunca abaixou a cabeça, como ele mesmo dizia, não sabia "prefeitar" e não ostentava uma formação acadêmica, mas sabia dirigir como ninguém e o Circular só saía da garagem quando os trabalhadores eram ouvidos e respeitados.

Nas lutas travadas na USP, Paulão era conhecido por todos, presença firme nos piquetes todos os dias, por mais longas que fossem as greves, esteve do lado dos trabalhadores até o final. Na última greve, que durou 118 dias, participou como membro do Comando de Greve, como exemplo de apoio em todas as lutas e como uma referência, tanto para os trabalhadores de mais anos de casa, como para os novos, que enfrentaram sua primeira greve e tinham nele um bastião de força, com palavras de firmeza e tranquilidade, com muita força para os momentos difíceis, mas também com bom humor e a risada que era só dele, para não deixar ninguém desanimar.

Cada um aqui na Prefeitura e na USP, que tenha passado pelo caminho desse querido companheiro, certamente tem alguma história muito boa para contar. Paulão estará sempre presente como um exemplo de força, orgulho e amizade, ele faz parte da nossa história e da história dessa Universidade. Temos a certeza de que ele fez de tudo para que esse seja um espaço mais justo e um espaço para todos, que atenda as verdadeiras necessidades dos trabalhadores e da população mais pobre. Em sua trajetória defendeu o direito ao emprego, o direito de greve e mobilização, a saúde e educação pública e de qualidade para todos. Paulão não só acreditou que cada um tem um papel determinante na construção dessa sociedade mais justa, ele ousou e viveu como acreditava, sendo uma verdadeira centelha de transformação. Cabe a nós, levar em nossas mentes e corações esse exemplo adiante. COMPANHEIRO PAULÃO, PRESENTE!!!
 

14.3.15

tempo suspenso




toda essa vontade de mudar é um impulso desesperado, agoniado, apressado de fazer o tempo passar, de sair desse tempo suspenso...

tudo parou no último mês e sem saber o que fazer me entreguei pra essa suspensão temporária, arbitrária...

ao mesmo tempo que tudo continua acontecendo, passando e passando por mim.

as coisas estão perdendo o sentido, está tudo triste demais.

nessa suspensão que não me dá descanso, que não acalma e nem resolve nada, todo esse tempo parado acumulando no peito, nos sonhos, nas lágrimas.

que quer logo e mais, transbordar...

pra que eu possa chegar, chamar, ouvir, sair desse lodo, de mim...


19.2.15

o vento, o carnaval...





quando estou sozinha, o vento passa diferente entre as folhas. o atendente da padaria dando bom dia a uma senhora nos comove, um sorriso cúmplice com a pessoa sentada ao lado é inevitável, por um instante parece que não estamos tão tristes.

num desses momentos, uma xícara de café com leite pode preencher quase uma hora, pra estender a sensação de amparo do morno do leite tocando a pele mais sensível da boca.

todas as vozes ficam opacas, a imersão não deixa ouvir, todos estão tão perto e tão distantes.

no momento que desci as escadas, já queria voltar, deitar com você de olhos fechados e só sentir o peso do seu braço na minha cintura, pra sentir algo que me prenda aqui.

pra sentir algo.

mas parece que ultimamente tudo que faço é agir e sentir em descompasso.

...

e no turbilhão do carnaval, dos encontros e desencontros, o tempo nos dá um descanso numa mesa de amigos, numa taça de vinho, numa noite de dança.

a vida brinca com a gente, canta no nosso ouvido, tira um sarro da nossa cara e nos acaricia o ventre, nos dá uma volta e nos leva embora, beija nossas costas, nos segura forte... e numa conversa arrastada e leve, num suspiro fundo, no salto, estamos soltos de novo.