14.9.14

sentir




vou tentando me concentrar

o tempo traiçoeiro
continua me puxando

guardo escolhas
são poucas as que tenho nas mãos

aquieto meus enganos
deixando para os sonhos os impulsos imediatos

enquanto isso vou seguindo
meio atordoada

ouvindo músicas novas
misturando conversas com poemas

confundindo coisas
esquecendo os emaranhados que criei

desacreditando certezas vindas do medo
e verdades amplificadas da idealização

ainda enredada nas cenas e trilhas
tão encantadoras

lembrando como é
sentir



11.9.14

mulher-rotina


desenho da Ju

quando a confusão se instala
se espalha
dentro, em volta, numa conversa despretensiosa
na tentativa de retomar o ponto de partida

dispara o ponteiro do relógio
arrasta as horas
inverte o dia pela noite
tira o sono
dorme

a confusão vai seguindo misturada
as vezes pesa mais
as vezes vira piada

mentira ligeira
filho, amor, casa, greve, conversa com a diretora
professora, filho, casa
mercado, feira
contas vencidas
poesia, dia
assembleia, passeata
noite, beijo, greve, casa, filho, encontro
corte de ponto
ameaça
ato
pizza, sol, abraço
lava, limpa, guarda
meia suja, chulé
conversa jogada fora
conversa séria
medo, casa, amor, filho
vontade de não fazer nada
vontade de fazer tudo
leva e trás
o ônibus que não passa
semana de provas
dentista
informação
propaganda eleitoral
contradição
a conta de luz dobrou
toda noite falta água
reposição de horas
verdade atropelada
janta atrasada
beijo e abraço de boa noite
encontro
sono
filho
coragem
vontade
cansaço

tudo parece demais

volta,
volta tudo
e recomeça


ps. essa poesia aí de cima tem um tom meio leve, quase de brincadeira, pra mostrar um pouco da minha rotina, tem coisa boa e tem coisa difícil, as vezes é melhor, as vezes dá vontade de fugir, não ter vergonha de assumir isso é parte de um processo importante de reconhecer que nem tudo é tão natural e cor de rosa assim, como nos sonhos de menina que nos querem vender desde tão cedo.

e no encontro com tantas mulheres batalhadoras vai ficando cada vez mais claro o quanto o peso de uma rotina é planejado, o quanto é culturalmente construído e conveniente. são muitas, muitas horas e pensamentos tomados.

aí começa essa conversa de natureza masculina, feminina ou maternal, de que todos tem sua chance e cada um é responsável por seu sucesso, romantismo, religião, família (qual família?), necessidade (de/para quem?) e tantas outras verdades tão convenientes.

quando paramos pra pensar em mulheres com realidades mais duras, com trabalhos ainda mais precários, muitas vezes não se trata mais só de filho em casa sozinho, o que já é angustiante pra uma mãe, é o peso de uma sociedade exploradora caindo em suas costas de todos os jeitos,  é filho sem professor na escola, quando não perseguido e assassinado por policial. tento imaginar o peso da rotina para essas mulheres, é desesperador. não dá pra achar normal.



10.9.14

alguns dias


Liniers_torcido

alguns dias são bons, outros ruins, não gosto de escrever sobre os ruins, mas desde criança foi esse o jeito que aprendi a separá-los de mim, de continuar inteira.

nesses dias mais difíceis sinto uma saudade que vem lá das entranhas, talvez o nome mais correto seja desamparo. é uma sensação de solidão, de abandono, como se estivesse tão solta de tudo, que perdesse meus pais, irmãs, filho e amigos. como se ficasse tão estranha, que não pudesse ser reconhecida, sentida ou vista. me torno invisível.

me torno um fantasma de mim, um espectro de pessoa e dos sonhos que carrego. me torno um corpo pesado que só pode transbordar lágrimas, pesares e tristeza. é um mergulho tão agudo que eu mesma não reconheço o reflexo, me sinto dissolvida nas horas, nos segundos, nas medidas concretas e lógicas que não fazem sentido algum.

me deixo perder por algum tempo, não tenho a menor força para segurar o desmantelamento de cada parte, de cada pensamento, de cada movimento. a dor das lágrimas retidas na garganta é pior. o peso dos olhos úmidos, da tez contraída e da cabeça latejando me prendem e me arrastam, como nos passos certos para um rio profundamente escuro, pardo, bravo.

já estive nesse lugar algumas vezes, já me demorei a sair.

faz um bom tempo tomei em minhas escolhas o caminho dessas sensações. as recaídas são doloridas, são sim. mas tenho a certeza de que são passageiras, são.

passar por cada uma, sentir cada coisa tão forte, de um jeito corajoso e maluco, é me tornar mais forte. é também não perder a capacidade de ter empatia, de olhar a beirada do penhasco, lado a lado, com tantos outros. nunca, nunca vou esquecer, angústia, mesmo essa angústia toda da mais dolorida, nunca vai deixar de ser bom sinal.

sinal de que sou humana, de que posso sentir e arriscar, sinal de que estou aberta, suscetível e entregue. que estou viva.


7.9.14

aqui se respira luta




não podemos comprar o vento não podemos comprar o sol não podemos comprar a chuva não podemos comprar o calor não podemos comprar as nuvens não podemos comprar as cores não podemos comprar nossas alegrias não podemos vender nossas dores são tantas pessoas, verdades, intenções já não somos os mesmos não podemos caminhar de olhos fechados as dores ecoam nos olhos e vozes na terra seca no asfalto queimado na vida pouca as lágrimas umedecem a rachadura livram os caminhos nos unem a alegria encontra espaço nas margens
no povo na revolução os corações ansiosos brincam de fazer poesia firmam suas vontades trocando palavras e sonhos de repente todas as vozes se fundem os gritos dos jovens de trabalhadoras e trabalhadores mesmo os desabafos dos incrédulos toda linguagem se presta se desdobra buscando mostrar que ainda estamos vivos e não estamos dispostos a nos entregar estamos em todos os lugares passamos raspando por seus fuzis e de alguma forma tomamos nosso espaço todo esforço só nos dá mais sede
o pulmão apertado procura o ar aqui se respira luta! ouvindo essa música tão bonita, Latinoamérica, e misturando trechos de conversas, são tantas as histórias. a do atendente, seu João, que veio do Nordeste, dizendo orgulhoso, quem vem do calor de lá está preparado pra tudo nessa vida, e é preciso estar preparado até pras coisas boas quando chegam, saber aproveitar e não perder as estribeiras. da mulher religiosa que crê na luta dos trabalhadores, pela força de Jesus e da nossa união vamos vencer! a do homem calado, que toma coragem de contar sua história num soluço, durante a greve não é marido, genro ou irmão, é companheiro.

da feminista que já sofreu tanto calada e encontrou no grupo mais diverso de mulheres, lésbicas e trans, Pão e Rosas, um espaço para contar suas histórias, ela gosta de falar, lá ela pode falar quanto quiser e ser ouvida. da leitura de Eles Não Usam Black-Tie, com o pessoal do ciclo de Leituras Públicas do TUSP. quando Tião tenta explicar pra Maria que furou a greve não por medo do patrão, mas por medo de encarar que é operário, que seu ganha pão é feito de greve e de luta, que a sua vida será como a de seus pais e de sua CLASSE. preferindo acreditar na chance de uma riqueza efêmera, abandona os seus. Maria manda ele embora, não vai junto mesmo com o filho no colo. a mãe de Tião chora emocionada, na peça e na vida. "O nosso amor é mais gostoso Nossa saudade dura mais O nosso abraço mais apertado Nóis não usa as bleque tais"
Adoniran Barbosa e esse processo todo de fazer parte da greve, do movimento Nossa Classe, de conhecer pessoas que vivem uma outra lógica, é rico demais. estou aprendendo tanto e revendo uma série de coisas... revendo e desconstruindo pra criar novos espaços, em mim e no mundo. ao mesmo tempo, é informação demais, intensa, urgente e importante... vou conciliando com meu jeito mais lento de absorver e fazer parte das coisas, não quero perder o bonde, mas também não quero me perder... vou tentando seguir consciente... contribuindo para alguma mudança. mesmo com qualquer atropelo de tempo, falta de jeito, turbilhão.



4.9.14

pontos de reticência


leonilson

linguagem
dialeto
trejeito

de algumas palavras-chave
relacionadas às partes do corpo

mania de combinar sensação
com acontecido

as vezes parece romance
as vezes rompante

de uma lembrança sensorial
um jogo de cabra-cega

que sempre escapa
do registro
do susto

num suspiro
arrepio

na dúvida, inverta a ordem
corte as palavras sussurradas

tire os pontos de reticência...