23.3.15

Paulão, sempre presente!

 








 

 
 
Nota em homenagem ao nosso companheiro Paulão

Paulo Roberto Gonçalo Samuel, mais conhecido como companheiro Paulão, estava com 58 anos, começou a trabalhar na Prefeitura do Campus em novembro de 1987, sempre como motorista na área de Transportes dividiu suas atividades principalmente entre o Circular e serviços para a área de compras. Para nós, trabalhadores da Prefeitura, era sempre uma feliz surpresa quando íamos fazer algum serviço de carro ou ônibus, e encontrávamos o Paulão no volante, com ele sentíamos a segurança de uma viagem tranquila, cheia de muitas histórias, boa conversa e uma chance de aprender muito sobre a vida.

Como Paulão nunca se interessou por disputas de cargo e posições com seus colegas de trabalho, dirigiu o ônibus Circular até seus últimos dias de funcionamento. Foi uma liderança reconhecida e fez parte de muitas mesas de negociação para defender os direitos dos motoristas e trabalhadores, sem medo e com orgulho de ser trabalhador nunca abaixou a cabeça, como ele mesmo dizia, não sabia "prefeitar" e não ostentava uma formação acadêmica, mas sabia dirigir como ninguém e o Circular só saía da garagem quando os trabalhadores eram ouvidos e respeitados.

Nas lutas travadas na USP, Paulão era conhecido por todos, presença firme nos piquetes todos os dias, por mais longas que fossem as greves, esteve do lado dos trabalhadores até o final. Na última greve, que durou 118 dias, participou como membro do Comando de Greve, como exemplo de apoio em todas as lutas e como uma referência, tanto para os trabalhadores de mais anos de casa, como para os novos, que enfrentaram sua primeira greve e tinham nele um bastião de força, com palavras de firmeza e tranquilidade, com muita força para os momentos difíceis, mas também com bom humor e a risada que era só dele, para não deixar ninguém desanimar.

Cada um aqui na Prefeitura e na USP, que tenha passado pelo caminho desse querido companheiro, certamente tem alguma história muito boa para contar. Paulão estará sempre presente como um exemplo de força, orgulho e amizade, ele faz parte da nossa história e da história dessa Universidade. Temos a certeza de que ele fez de tudo para que esse seja um espaço mais justo e um espaço para todos, que atenda as verdadeiras necessidades dos trabalhadores e da população mais pobre. Em sua trajetória defendeu o direito ao emprego, o direito de greve e mobilização, a saúde e educação pública e de qualidade para todos. Paulão não só acreditou que cada um tem um papel determinante na construção dessa sociedade mais justa, ele ousou e viveu como acreditava, sendo uma verdadeira centelha de transformação. Cabe a nós, levar em nossas mentes e corações esse exemplo adiante. COMPANHEIRO PAULÃO, PRESENTE!!!
 

14.3.15

tempo suspenso




toda essa vontade de mudar é um impulso desesperado, agoniado, apressado de fazer o tempo passar, de sair desse tempo suspenso...

tudo parou no último mês e sem saber o que fazer me entreguei pra essa suspensão temporária, arbitrária...

ao mesmo tempo que tudo continua acontecendo, passando e passando por mim.

as coisas estão perdendo o sentido, está tudo triste demais.

nessa suspensão que não me dá descanso, que não acalma e nem resolve nada, todo esse tempo parado acumulando no peito, nos sonhos, nas lágrimas.

que quer logo e mais, transbordar...

pra que eu possa chegar, chamar, ouvir, sair desse lodo, de mim...


19.2.15

o vento, o carnaval...





quando estou sozinha, o vento passa diferente entre as folhas. o atendente da padaria dando bom dia a uma senhora nos comove, um sorriso cúmplice com a pessoa sentada ao lado é inevitável, por um instante parece que não estamos tão tristes.

num desses momentos, uma xícara de café com leite pode preencher quase uma hora, pra estender a sensação de amparo do morno do leite tocando a pele mais sensível da boca.

todas as vozes ficam opacas, a imersão não deixa ouvir, todos estão tão perto e tão distantes.

no momento que desci as escadas, já queria voltar, deitar com você de olhos fechados e só sentir o peso do seu braço na minha cintura, pra sentir algo que me prenda aqui.

pra sentir algo.

mas parece que ultimamente tudo que faço é agir e sentir em descompasso.

...

e no turbilhão do carnaval, dos encontros e desencontros, o tempo nos dá um descanso numa mesa de amigos, numa taça de vinho, numa noite de dança.

a vida brinca com a gente, canta no nosso ouvido, tira um sarro da nossa cara e nos acaricia o ventre, nos dá uma volta e nos leva embora, beija nossas costas, nos segura forte... e numa conversa arrastada e leve, num suspiro fundo, no salto, estamos soltos de novo.


3.2.15

sobre estar triste e continuar vivendo




sim, estou triste, qual é o grande problema com isso? é a vida...

tenho sentimentos, tem uns órgãos aqui dentro, que mesmo não entendendo bem porque e não sabendo o nome, se contorcem, se apertam, doem, quando menos espero. nó na garganta não é força de expressão.

e não era pra tanto, pode até ser, mas sabe já estou acostumada a sentir tudo grande, o amor, a alegria, a saudade, a raiva, a indignação e sim, a tristeza também.

teve um momento da minha vida que tive que escolher, não sentir nada ou continuar sentindo tanto. fugi do sentir nada com todas as minhas forças. não me dopar, anular, cegar, mascarar, foi uma das poucas grandes certezas que tive.

e agora, sigo assim, feliz... e triste também.

não significa que não entendo a importância de tudo o que estou envolvida. não significa que vou viver com menos empenho.

não significa que não posso rir com amigos e tomar umas cervejas.

não significa que não posso ficar feliz pelo momento feliz de outras pessoas, ainda mais se for uma pessoa querida e especial para mim.

não significa que a minha tristeza é mais importante que a tristeza e sofrimento dos outros, do mundo.

mas, com licença, é assim que me sinto por enquanto e sei que tenho meu tempo... mais ainda, sei que preciso viver o que sinto, só assim os sentimentos tem a chance de se transformar, posso crescer, não me perder e ser eu.

nessa neura de ser exatamente o que se é, nas minhas voltas malucas, sei que chego onde preciso chegar, onde quero.

aliás, há pouco tempo, numa conversa importante, uma pessoa que admiro muito, Brandão, me falava sobre como esses sentimentos nos tornam humanos e que justamente por sentirmos tanto, temos essa urgência e necessidade de mudar tanta coisa, de lutar, de arriscar, de dedicar uma vida.

é contraditório e é assim.




30.1.15

Ela




há um tempo assisti esse filme surreal que é tão bonito, no qual um cara se apaixona por um sistema operacional através de um celular. mesmo reconhecendo todos aqueles sentimentos e me entregando às vozes e cenas de cores alaranjadas, não acreditava que poderia viver algo assim.

me sentia distante de toda essa tecnologia e solidão, me cercava de barreiras pra resistir a rapidez e a falta de carne, pele e sangue nas veias dessas relações.

aí, a vida te prega uma dessas, de repente você se vê passando por todas essas sensações olhando pra telinha de um aparelho de celular... é por ele que tudo aos poucos começa com a troca de palavras embaraçadas ou exageradas, é por onde falamos das saudades e buscamos o alívio das angústias.

é por ele que sentimos o frio da distância conectada.

a coisa toma uma proporção, as relações reais ficam impossíveis por uma série de motivos complicados e emaranhados, e o coração aperta a ponto de transbordar nos olhos sem querer...

você está sozinha em casa e não tem a quem chamar, as distâncias são amplificadas pela vida que levamos, o ombro, a voz e o abraço urgentes são substituídos por palavras de uma amiga querida dos tempos de faculdade, vindas do outro lado da cidade. eu chorando na minha cama, ela com seus meninos que caíram no sono um de cada lado, e alguma disposição, mesmo com todo cansaço, as duas motivadas por muito carinho e saudade.

o amor, que um dia foi pele, saliva e carne promete ser cada vez mais distante, a quilômetros e quilômetros, no mesmo bairro, na mesma sala... e toda necessidade e desejo se vêem acalentados por algumas palavras nessa tela, que ilumina seu rosto no quarto escuro, e que ao menos por enquanto, é sua única ligação.