12.10.16

cambaleia




a linha do apaixonar-se é uma
cada um tem a sua
um passo e outro
volta, fica com medo

a linha imaginária de todas as coisas
das curvas
da pele
da garoa e da chuva

a volta na linha
invertida da cama
levanta, deita e beija

não sei pensar sobre o não
sobre o muro e o suspiro

a linha das imagens
se formam nas mãos
nos dedos
nos abraços
nos cabelos

pisa leve sobre a linha
cambaleia pra lá e pra cá



29.9.16

uma conversa sobre amoras e caixa d'água

por essas semanas, já perdi a conta de quantas, tive uma briga muito triste com meu pai... escrevo aqui meio que conversando sozinha, porque não sei o que fazer com a angústia que aparece de tempo em tempo.

bate uma preocupação, com a saúde e as coisas práticas da vida, que são bem difíceis, mas também de ficar imaginando o que se passa na cabeça dele, volto à história do quebra-cabeça e fico tentando encaixar uma peça e outra, tentando imaginar como é ser um homem como ele, num mundo como esse. tento entender de todo jeito o que vai levando a gente a se proteger tanto, tanto a ponto de machucar o outro... alguém que só devia fazer sentido amar e cuidar.

um homem carrega sua história, sua infância, carrega as diferenças e rupturas com seu pai, a mágoa que ficou da sua mãe, é triste pensar que só sei essa parte da história, será que não teve nada de bom dessa fase? lembro de olhar a foto branco e preta dos seus vinte e poucos anos, e das lembranças em botes de plástico amarelo e azul, no meio de rio e de muito mato, e enxergar uma alegria ali, alguém que tá sempre procurando o seu lugar e seu caminho. deve ter tido amor pra chegar até ali. e de lá pra cá uns desencontros, alguns ainda ficaram próximos, outros tão longes. eu não tinha essa intenção. nem entendo porque não consegui evitar, deixar pra lá... relevar o que é distante demais, guardar uma ligação, um café da manhã apressado, uma conversa sobre amoras e caixa d'água.

não quero me explicar pelos motivos todos culturais, sociais e políticos. esse texto é pesado e o que escrevi no dia do desabafo, cheio de impulso e choro, já é difícil o bastante pra processar. fico agora com o que ainda posso sentir, essa vontade de amornar a tristeza pra ir desfazendo os nós, essa sensação de o que os homens não tomam coragem de olhar e fazer, o tempo faz o trabalho de ir levando e levando... não sei bem pra onde.

e vou ficando sem resposta, nesse silêncio que se estende indefinidamente. e só posso achar que esse tempo e esse vazio, assim como tantos já impostos, só podem fazer parte de alguma lição que teimo em não aprender.