17.9.16

uma coleção de céus, noites e mares


ilustração da Juli Ribeiro


tem uns momentos da vida que tem uma beleza, uma poesia, são meio como aquela cena de um filme que  te faz sentir bem e dá uma nostalgia quando lembra

dá vontade de guardar numa coleção, uma coleção de céus, noites, mares, estrelas, árvores e lugares que nunca estivemos antes

um lugar longe, longe... e aquele lugar de todo dia, que de repente se transforma em outro

montanha, muito mato, uma subida íngreme, mão puxada pelas crianças, mirante, carona de trator, terra vermelha e um céu de estrelas

areia branca e fresca, lua amarelada tão perto do mar tocando a nossa pele, não parece noite, lençol pra proteger do vento que sopra como uma respiração lenta no pescoço

um bar, uma festa, uma sala de estar ou uma avenida no centro de São Paulo, uma brisa, ter que segurar nos braços da cadeira, na sua mão, pra não flutuar

tem esses momentos, que quando você tá vivendo sente que cada minuto é único, que precisa se descolar do corpo pra assistir tudo enquanto acontece, pra além de sentir o gosto e a sensação, poder ver a beleza da fotografia, da luz, do reflexo, dos movimentos

a gente nunca guarda o suficiente, o estalar das milhares de pequenas folhas secas, o céu entre as frestas da copa das árvores, olhar a noite por cima da marquise, apoiar a cabeça e por um instante esquecer de tudo mais em volta

esses recortes não são feitos só pelas coisas, pessoas ou lugares, são feitos de uma vontade, de uma mudança de ar, uma decisão, da passagem de um ciclo pra outro, de aceitar uma tristeza que passou e enxergar uma alegria que é possível

nessas horas perdemos a mochila, as coisas, o celular, as chaves, uma blusa, um brinco, perdemos a falta do chão e o medo, nos entregamos à vontade de não estar sozinhos na beira da estrada, entregamos um tanto da gente pra se fazer poesia...

13.9.16

bloguinho-diário-desabafo

retomo as origens desse bloguinho-diário-desabafo com postagens impulsivas, longas ou rápidas, pra fazer o tempo passar, esse remédio necessário, que gira a roda dos acontecimentos e força a mudança dos sentimentos.

dor não devia poder ser escrita, pra escrever é preciso sentir de novo e de novo, num exercício masoquista e obsessivo, nessa ilusão de ir até o fim, pra acabar.

o passar dos dias sempre me carrega e na ironia dramática, na inversão da rotina, nos contos sobre bailes russos e caves cheias de salitre musgoso me distraio. pelo menos por agora, deixa o sentido de lado um pouco, esquece o passado distante, mais ainda o próximo, pra sobreviver a todo esse emaranhado.

dor escrita, noite mal dormida, dia de sol, vestido fresco, sandálias, abraço de filho, almoço em boa companhia, risadas ao fechar das portas. uma segunda-feira cinzenta não resiste até o final, não vence a noite, a terça e a nossa teimosia.