24.11.14

meio doce, meio bruto

   







terra seca
garoa
sol
vento
água

um passo que tenta ser firme nos pedregulhos
um caminhar pelos pensamentos
que escapa

e nesse jeito de seguir
você passa a compor minhas imagens
texturas e gostos

confundo o fundo do horizonte
com a sensação do toque no seu rosto
como minha mão que escorrega pelas suas costas
e desenha uma montanha, lago, nuvem, riacho

a umidade do ar tem o gosto da sua boca
o entrelaçado das árvores
lembra nossa conversa emaranhada de anseio, vontade e afago

sigo misturando os sentimentos
na transmissão ruidosa dos meus medos

e na conversa mansa
de costas curvas, cadeira de madeira e olhar fosco
tudo se aquietou aqui dentro

a origem dos silêncios todos
do desassossego, do instante, da paciência
desse jeito meio doce, meio bruto

dessa vida contida
que precisa escapar

e quer
numa noite fresca


17.11.14

na minha




dormi pesado
junto dos sonhos cor de madrugada

o corpo moído não parou de doer
não queria levantar
todo errado

padronizado

a textura do travesseiro me fez sentir sua falta

fiquei mais um pouco
só pra sentir o tempo

ilhada: nem bom dia, nem talvez

só pra sair longe
as vezes é assim, nada passa sem rasgar

e no peso de ficar solta
me senti vaga

bambeando na linha fina
das fechaduras
das veias,
do paletó
e do vestido

na bagunça do meu coração
do sangue
da ira
na minha


* não costumo me preocupar com cronologia, na dúvida esse é da semana passada!


4.11.14

presente, distante


caderno, 1989, Leonilson

essa saudade que vem brincar de tirar meu rumo
me distrai, encanta, enreda
toma conta dos espaços
abre portas esquecidas
passa suave como vento pela nuca
conta mentiras no meu ouvido
quer ser maior que eu
quer amar a dúvida
se esconde na minha cama
passa ligeira a mão na minha barriga
sente o ar que sai da minha boca
acha graça dos meus sonhos surrealistas

essa saudade
que insiste em ser vontade

essa saudade
que te faz presente
que te faz distante

que não quer saber de sossego
até te absorver


3.11.14

tão frágil como um segundo




na angústia dos sentimentos
recorro à música
à voz doce
carregada de marcas
ao violão
feito de poema
ao amor das mulheres
que não hesitam
sentem
mesmo com medo
mesmo que a vida não deixe
não podem evitar
o desejo irremediável abriga seus corações
ora desgovernando a rotina
ora impulsionando o salto

e tantas noites passam e passam
muitas feitas de sonhos
algumas de sonho realizado
de cena de cinema
de esquete desengonçada
biografia
fotografia
nota
rabisco

deixo logo tudo aberto
solto a força das mãos
fico apenas com o toque suave
deslizando
nas minhas vontades
em cada encontro e despedida

fica
volta
chega
logo
bem


27.10.14

nouvelle vague




se apaixonar
é como ganhar um olhar 
numa cena da nouvelle vague
é como sentir o lençol escorregando 
nos seios de Clarisse 
no quarto do pianista
é como contar em segredo até dez
pra tomar coragem
pegar nas mãos, dar o braço, apertar os olhos
dar risada 
num filme de Truffaut
é estar com o corpo quente 
e sentir frio
com o corpo gelado
suando quente
é querer contar todos os medos 
por medo de perder
é sentir saudades 
antes da despedida
é querer guardar na lembrança
na pele
e no gosto
cada instante

é perder toda prudência
na primeira esquina


* só encontrei a cena em italiano, ela é linda em qualquer idioma...